domingo, abril 08, 2012

Crise financeira mundial está trazendo os cearenses de volta

08/04/2012

A chamada crise financeira mundial está fazendo com que muitos cearenses que moravam no exterior retornem ao Estado. Apesar de não existir um dado oficial de quantos eles representam, estatísticas do Itamaraty apontam que 16% dos brasileiros que moravam no exterior estão retornando desde que teve início a recessão, em 2008. Naquele ano, eram 3.735.826, enquanto em 2010, 3.122.813.

No Ceará, segundo estatísticas do setor de Migração da Polícia Federal (PF), de janeiro a março deste ano, 10.391 brasileiros retornaram do exterior pelo Aeroporto Internacional Pinto Martins e pelo Porto do Mucuripe. Comparando o ano de 2010 (48.125) com o de 2011 (51.212), observamos um aumento de 6,4% no número de brasileiros que retornaram ao Ceará de viagens do exterior.
Vantagem
José Borzacchiello da Silva, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pós-doutor em Geografia Humana, destaca que há muito tempo o cearense já retorna, mas frisa que o fluxo maior do Estado não foi para o exterior e, sim, para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Na visão do especialista, o retorno sempre é mais vantajoso, pois, como emigrante, no exterior, o cearense, assim como os demais brasileiros, ofereciam apenas força de trabalho, sem ter tido chance de desfrutar das oportunidades que o País passou a oferecer, em termos de políticas compensatórias, acesso à qualificação profissional e, principalmente, à universidade.
Flávio Ataliba, diretor geral do Instituto de Pesquisa Estratégica Econômica do Ceará (Ipece), observa que a grande expansão que o mercado interno brasileiro apresentou nos últimos dez anos, com forte redução das desigualdades sociais, é o que está possibilitando, através do consumo das famílias, a ampliação do mercado interno do País. A repercussão, acrescenta o gestor, está na ampliação da classe média, que representa mais de 50% do total da população.
"O Brasil está garantindo o crescimento econômico sustentável, o que ainda deve permanecer por muito tempo. Isso garante que as pessoas que desejarem retornar ao Brasil encontrarão um cenário de estabilidade e expansão"
, ressalta Ataliba. Para o diretor geral do Ipece, esse cenário positivo que vive o Brasil serve de estímulo para que muitos brasileiros que vivem no exterior retornem. "Eles voltam com outra perspectiva, pois aprenderam atividades onde estavam que poderão exercer aqui no Brasil".
Por causa da grande quantidade de brasileiros que estão retornando do exterior, o Governo Federal resolveu elaborar, em setembro de 2010, o Guia de Retorno ao Brasil. O objetivo é orientar e facilitar a volta desses compatriotas, de modo a que possam reinserir-se na sociedade e no mercado de trabalho, retomando suas vidas aqui com a dignidade que merecem. A cartilha visa capacitar agentes consulares brasileiros, funcionários de organizações de acolhimento estrangeiras e voluntários para que possam orientar os brasileiros retornados a fazerem uso dos muitos programas e serviços que existem à sua disposição no Brasil, nas esferas da saúde, educação, trabalho e moradia. "Queremos que o retorno ao Brasil daqueles que mais precisam de apoio seja, não o fim de um sonho, mas o recomeço de suas vidas", frisa.
Ex-emigrantes demoram a se readaptar
Após anos morando no exterior, convivendo com costumes e tradições diferentes, é inevitável que, com o retorno ao País, os brasileiros sofram um choque cultural. Por isso, precisam de um tempo para se readaptar. Em alguns casos, porém, esse processo ocorre de forma mais lenta e o que inicialmente parecia ser uma simples dificuldade de readaptação transforma-se na chamada síndrome do retorno.
Helenir Barreira, psicóloga e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), explica que a cultura é um elemento muito importante na formação do sujeito. É quem sedimentará toda sua existência e, quando ele sai de uma cultura para outra, terá de passar por um processo de aculturação tendo de se adaptar a essa nova realidade. Esse distanciamento faz com que, quando o sujeito retorne, passe a enxergar certas questões do seu contexto social, que antes não incomodavam, com desconforto.
"Aqueles que já estavam adaptados no exterior, quando retorna percebem que aquele sentimento de pertencimento com o seu País pode ter sido perdido, principalmente os que passaram muito tempo fora". A psicóloga explica que essa situação gera um estresse na pessoa, que passa a se sentir estranha na sua própria casa, na sua própria terra.
Para evitar comparações e essa sensação de estranhamento a especialista afirma que é importante que quem está retornando tenha em mente que não existe cultura melhor e nem pior, o que existe são culturas diferentes. A estudante de comércio exterior Rebeca Hayas, 25 anos, fez intercâmbio por um ano e cinco meses nos Estados Unidos e retornou ao Ceará no dia 29 de março deste ano. Ela destaca que a volta de brasileiros tem ocorrido não apenas em função da crise financeira, mas também pelo sistema de imigração que tem se tornado mais restrito com relação aos estrangeiros. Como boa parte dos brasileiros estão de forma ilegal, não está mais valendo à pena se sujeitar a ficar no País de forma ilegal.
Com a economia brasileira em ascensão, a estudante destaca que a imagem que os norte-americanos têm do Brasil mudou bastante nos últimos quatro anos, eles estão mais abertos à cultura brasileira. Apesar disso, Rebeca diz que é comum a depressão pós-volta. O que percebeu de mais gritante é que nos Estados Unidos a mão de obra é o bem mais valorizado, enquanto no Brasil é o contrário. Paga-se muito imposto, mas as pessoas são mal remuneradas e os serviços públicos muito ruins.

 DIÁRIO DO NORDESTE