O INSULTO DO HUMOR
“Criticar sim, faltar com o respeito jamais!”
Por Elenilson Nascimento
Acho que agora, mais do que nunca, cabe um post sobre restrição, demagogia, falta de educação, censura e toda essa porra que infesta a nossa sociedade diante da intolerância fundamentalista dessa mídia de “merda” que pouco altera. Uma mídia inútil e que compactua com esse estado letárgico de coisas e de inércia. O pão e circo é um mantra!
Não, este texto não carrega a mínima pretensão de seriedade nem de moralismo (*por mais questionável que seja o termo). Aqui não trarei conclusões nem tampouco uma análise que seria digna de um artigo de opinião num veiculo mais acessado. Não tenho problema algum com o politicamente incorreto. Muito pelo contrário. Já me acostumei com a podridão das notícias desbotadas de jornais. E sou perfeitamente capaz de entender uma piada ou rir de algum comentário que envolva esse tipo de humor, inclusive – e principalmente – quando ele é dirigido a algum grupo do qual eu faço parte (professor fudido, escritor fudido, brasileiro fudido e por aí vai).
Mas desconfio que muita gente
moderna que se mostra horrorizada com o politicamente incorreto seja, lá no fundo, bem chata: não pode fazer piadas sobre a esquerda, mas pode sobre a direita; não se fala em questões raciais, mas criticar religiões tá liberado (desde que não use o nome de Deus, Edir Macedo ou o porra louca do Silas Malafaia em vão). Rir das pessoas gordas não tem mal nenhum se o alvo for a galera saradona e siliconada das academias de ginástica. Mas, as vezes, a deselegância chega ao extremo!
moderna que se mostra horrorizada com o politicamente incorreto seja, lá no fundo, bem chata: não pode fazer piadas sobre a esquerda, mas pode sobre a direita; não se fala em questões raciais, mas criticar religiões tá liberado (desde que não use o nome de Deus, Edir Macedo ou o porra louca do Silas Malafaia em vão). Rir das pessoas gordas não tem mal nenhum se o alvo for a galera saradona e siliconada das academias de ginástica. Mas, as vezes, a deselegância chega ao extremo! Outro dia na Biblioteca Pública dos Barris, terra de ninguém e de funcionários extremamente ignorantes, falei que o blog da instituição que deveria informar sobre as atividades e eventos não informava nada. Resultado: ao invés de uma bicha gorda do setor de empréstimos procurar averiguar o que eu falei foi ríspida e de uma deselegância sem precedentes: “Você quer o quê? Vá conferir os eventos ao vivo pelo Youtube!”, gritou ofendida a bicha neurótica do altar da sua cadeira. Mas eu nem dei importância. Talvez a gorda seja mais uma vaquinha de presépio na imensidão daquele elefante branco.
Quer dizer, ruim é falar da minha turma de autores fudidos na Flica ou da turma que eu gosto, o resto tá ok. Pois eu sou da turma dos descrentes que, para quem ninguém, ninguém mesmo, pode se considerar acima de ser alvo de piadas. E, pro meu gosto, ficar só no nível das anedotas de salão é algo muito limitador. Então sou fã de carteirinha da turma do politicamente incorreto. Desde que se mantenha a elegância.
Mas, infelizmente, a deselegância nos define! A deselegância é um gene herdado dos nossos ancestrais. A nossa deselegância é deprimente. A nossa deselegância é igual a buceta cabeluda da Cláudia Ohana. Igual ao modelito de camelódromo da garota suburbana de Periperi de cabelos descoloridos que acha que é a Lady Gaga. A nossa deselegância é igual ao acordar de madrugada nesse Horário dos Infernos de Verão, graças aos quatro dedos do governador Jaques Wagner no rabo do trabalhador. Igual ao excesso de brilho da “perua” que passeia todas as tardes no Iguatemi com a cara cheia de Botox, com os cartões do marido otário e que faz caridade no Natal só para passar o tempo. Nossa deselegância é igual às caras dos deslumbrados da Fashion Week, dos professores universitários e dos colegas jornalistas de Salvador. Sim, porra. Deselegante é ser deslumbrado. Assim como é deselegante ser desdentado.
Mas achei muito merecida a punição imposta ao humorista Rafinha Bastos pelaBand. Apesar de não ser mais tão espectador assíduo do CQC, gosto do formato do programa do Tás. Porém, isso não dá direito aos seus apresentadores de fazerem comentários de extremo mau gosto como aquele feito pelo Bastos sobre uma cantorazinha teen, filha de Zezé de Camargo e Luciano.
Mas o que esperar de uma nação que é muita coisa: violenta, corrupta, desorganizada, demagoga. Mas é, principalmente, deselegante. Do mais pobre em Plataforma ao mais rico no Corredor da Vitória, passando pela classe dos professores medíocres ou pelo ego de inteligência da bicha gorda da BPB – a insidiosa classe média –, o brasileiro é desprovido de bom gosto ou discrição; é desalinhado, desinformado (*sabe mais sobre a vida dos outros no Facebook do que do afastamento do ministro do Esporte, Orlando Silva, pela Dilma “mãos de tesoura”, da interlocução do governo nas negociações da Copa de 2014 e na tramitação da Lei Geral da Copa no Congresso). O brasileiro acima de tudo é um forte, além de mal-arrumado, mal-educado, mal-comido; não possui delicadeza nem polidez; é grosseiro, desairoso e, para piorar, por vezes desonesto.
Essa história da demissão do Rafinha Bastos foi boa para tomarmos noção de que nem tudo pode ser dito – é puro delírio achar que vivemos mesmo com algum tipo de liberdade de expressão – tudo agora pode gerar um processo e julgamento dos crimes de calúnia e injúria. Considero o comentário que o Rafinha fez no programa, além de muito sem graça, foi de uma total falta de respeito. Mas esse rapaz precisa aprender a diferença entre o que é ser autêntico e o que é ser grosseiro. Exatamente como a bicha gorda da biblioteca.
Gostaria de saber se ele acharia tão engraçado se alguém tivesse feito uma piadinha dessas com alguém da família dele. Pois é, pimenta no cu dos outros é refresco. Sou totalmente a favor da liberdade de imprensa, mas também sou a favor dos meios de comunicação possuírem algum tipo de código de conduta de seus colaboradores. Uma pessoa que fala em cadeia nacional, e em horário nobre, para crianças e adolescentes (*porque vocês acham mesmo que esses pentelhos com família ausente estão dormindo nesse horário?) tem a obrigação de ter bom senso naquilo que fala. Mas, novamente eu digo: a deselegância é coisa nossa!
O humorista já protagonizou outras polêmicas de mal-gosto ao dizer que “mulheres feias deveriam agradecer caso fossem estupradas, afinal os estupradores estavam lhes fazendo um favor, uma caridade”, sendo acusado de apologia ao estupro. Agora está sendo processado pela cantorazinha teen. E devido à repercussão da polêmica, várias enquetes nos meios de comunicação questionaram os leitores. Dos 341 internautas que participaram da enquete, 59,53% acham que é uma falta de respeito com a família brasileira. Pelo Facebook, também abrir uma e o resultado foi o seguinte: para 22,29%, é engraçado, e todo mundo já sabia que seu humor era ácido. E 18,18% consideram o fato uma grande besteira.
fonte;literatura clandestina
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